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O autor à parte

Luis Fernando Verissimo

Entre 1957 e 1960, o escritor inglês Lawrence Durrel lançou os livros (Justine, Balthazar, Mountolive e Clea) que formaram o seu Quarteto de Alexandria. Foram os livros mais comentados e elogiados da época, embora pouco se fale deles hoje. Os quatro contavam a mesma história envolvendo personagens inesquecíveis vista de quatro ângulos diferentes, numa prosa que evocava brilhantemente o exotismo e a sensualidade da sua personagem principal, a cidade de Alexandria. Muita gente que foi visitar Alexandria depois de ler os livros se decepcionou: em vez da cosmopolita “capital de desejo” de Durrel encontrou o que dizem ser uma das cidades mais feias e malcheirosas do mundo (a literatura é sempre preferível à verdade). As quatro versões diferentes da mesma história têm o mesmo narrador, Darley, que chega a se envolver na ação, mas, na maior parte do tempo, é apenas um observador do minueto erótico dos seus personagens, um exemplo do autor como testemunha, ou como anotador. O que sobrevive para contar a história. Ou, no caso do Quarteto de Alexandria, as histórias.

O autor à parte é uma convenção literária que vem de longe. O lshmael de Moby Dick não é exatamente um narrador distanciado - ele sofre todas as consequências da obsessão do capitão Ahab pela baleia branca - mas é literalmente o que sobra para contar o que houve. Nunca se fica sabendo a identidade de quem descreve, na primeira pessoa mas em segunda mão, o que acontece em O Coração das Trevas, do Conrad. Mas talvez o mais célebre autor à parte de toda a literatura seja o Dr. Watson. Cuja missão na vida é narrar os feitos do seu amigo Sherlock Holmes. O bom Watson, além de anotador, é quem ouve as deduções de Holmes, invariavelmente se espanta com o seu poder mental e deve estar sempre pronto a segui-lo numa aventura mesmo sem saber em que estará se metendo. Apesar do seu enorme ego, é difícil imaginar Sherlock Holmes escrevendo suas próprias memórias. Ele deve sua posteridade ao apagado Watson. Holmes não existiria se não fosse por Watson. Mas também é difícil imaginá-lo reconhecendo este fato.

Nick Carraway é o nome do narrador de O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald. Vizinho e eventualmente amigo e confidente do misterioso Gatsby ele acompanha o amor deste pela diáfana Daisy, sua prima, até o trágico fim. Carraway simpatiza com Gatsby, cuja fortuna ninguém sabe de onde veio, mas observa que o seu sonho de conquistar Daisy é também o seu sonho de conquistar a respeitabilidade, e pertencer ao mesmo mundo de Nick, Daisy e a velha aristocracia nova-iorquina. Os dois sonhos são inalcançáveis. O Grande Gatsby é uma narrativa romântica sobre classe e preconceito, mas que ninguém confundiria com uma novela da Jane Austen. O narrador interfere na ação o mínimo possível - ou o máximo permitido a um autor à parte - mas no fim é quem nos diz o que tudo significou. A última palavra, afinal, é sempre do narrador, por mais distante que pareça.

O Charles Ryder que conta a história de Brideshead Revisited, do Ewelyn Waugh, é uma espécie de anti-Nick Carraway. Ele é o plebeu fascinado por um mundo que não é o dele, o da nobreza inglesa, no caso a família Marchmain, dona da mansão de Brideshead. Ryder acaba participando da vida da família, tendo casos com um filho e com uma filha de lorde Marchmain, mas nunca deixa de se sentir como um agregado. Waugh, um convertido ao catolicismo, disse que o seu livro era sobre a fé. A principal cena da história é a da reconversão do velho lorde, que abandonara a igreja, no seu leito de morte. Há quem diga que é uma das grandes cenas da literatura inglesa. Outros acham que só esta cena impede que Brideshead Revisited seja considerado um dos melhores livros do século passado. De qualquer maneira, o anotador estava lá.


Domingo, 28 de novembro de 2010.



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